A rota do bacalhau

A primeira pergunta de 11 em cada 10 brasileiros que encontro ou recebo aqui é: Carol, onde é que eu encontro um bom bacalhau por aqui, hein?

É claro que chegar em Portugal com fome leva a esse tipo de pergunta. Tá no nosso imaginário e ganhou o nosso gosto. Brasileiros amam bacalhau, esse peixe que se tornou tradição em nossas casas e que, de tão especial, é geralmente servido em ocasiões raras. 

Bacalhau é o que há de mais básico na culinária portuguesa. E olha que ele nem existe por esses mares atlânticos. Eles gostam de frio e vivem nos mares do Norte e há muitos anos se tornou profissão e tradição portugueses irem pescar bacalhau pros lados de lá. Portugal sozinho consome 25% de todo bacalhau que se pesca no mundo e já ouvi por aí que é o prato principal de cerca de 300 dias no ano de grande parte das famílias. É como o nosso arroz e feijão e, da mesma forma, é uma instituição, sendo eles super exigentes com sabor e preparo.

Todo o peixe pode ser aproveitado. Nas lojas que vendem especificamente bacalhau, a gente encontra cestos só com línguas (sim, além de cabeça, ele tem língua), barbatanas e tudo o mais. E há receitas específicas pra que cada parte do peixe seja utilizada da melhor maneira. Por exemplo, no "bacalhau com natas" e no "bacalhau à brás" vão a parte mais fina do peixe desfiada. Já o lombo do bicho, que é a parte mais grossa e mais gostosa, é usado no "bacalhau com broa" e no "à minhota".

Apesar de não ser difícil encontrar um bacalhau delícia por aqui (a maioria dos que comi são melhores que o melhor bacalhau que já comi no Brasil) também não é como minha tia Edna imaginou: não, não são servidos dezenas de tipos de receitas de bacalhau em qualquer restaurante português. E Portugal não é só bacalhau não! Eles tem muito mais a oferecer em termos culinarísticos. Quem ler verá.

Sobre os bolinhos de bacalhau, nossos velhos conhecidos, aqui são chamados de pastéis de bacalhau e avisamos que pode acontecer uma certa decepção quando você pedir por eles. Não pelo sabor, mas pelo fato de que são frequentemente servidos frios. Fritos pela manhã, ficam expostos para a venda durante o dia, e isso faz toda a diferença. Pra quem achar a mistura de sabores interessante, recomendo o pastel de bacalhau recheado com queijo da Serra da Estrela, vendido numa lojinha que abriu recentemente na rua Augusta. Mas não esquece de perguntar se tá quentinho!

O meu bacalhau preferido é o "à lagareiro" que Leandro faz aqui em casa e sempre fica uma delícia! (Não conta pra nenhum português, mas ele usa o congelado!) Depois desse, o mais gostoso que provei foi o do Largo. Feito a 80 graus, uma temperatura bem baixa pra se assar qualquer coisa, inclusive bacalhau, além de bem molhadinho, a textura é ótima. Detalhes importantes: vem pouco e é caro. Bacalhau não é meu peixe preferido e eu posso ter sido influenciada pelo ambiente desse restaurante, que é super bonito e agradável, cheio de aquários com águas-vivas hipnotizantes. Fica aqui o registro de que minha opinião pode, então, não ser das mais honestas.

Como a pessoa que mais gosta de bacalhau nessa casa é o Leandro, teremos uma participação especial! Pra ele, o bacalhau com broa e grelos do Sacramento é o melhor q ele já comeu. Não só o peixe é de qualidade e está dessalgado na medida certa, como o restante dos temperos utilizados no prato dão o toque perfeito e harmônico. Ah, o chef é brasileiro.
 

Pra encerrar, mais algumas indicações de onde encontrar mais delícias com esse peixe. No Café Lisboa tem uns nuggets de bacalhau muito gostosinhos; a Taberna da Rua das Flores tem uma salada deliciosa chamada "meia desfeita de bacalhau", que leva além do peixe, ovo, cebola e grão de bico; o burguer de bacalhau com grelos em bolo do caco do Prego da Peixaria também vale o pedido. Esse da foto aí debaixo comemos num restaurante num lugar lindo, o Azenhas do Mar, e tava bem bom. E antes de ir embora, não deixe de passar em uma loja de conservas, ou no mercado, e comprar bacalhau enlatado. Pode apostar, é uma iguaria!

Esse assunto poderia render infinitamente, mas vai render só mais um post. Com as dicas da Fernanda, que é bem mais entendida do que eu.

bacalhau

Cafê

Eu tenho muitos amigos. E a maioria deles é bem legal. Não se preocupem, não citarei nomes dos que estão incluídos na minoria. E quando viemos morar em Portugal, pensei que seria quase impossível fazer novas amizades tão importantes pra mim quanto as que eu já tinha. Achava que meu coração já tava lotado e tava bom assim. Na primeira semana eu já entendi que eu tava errada e que Lisboa podia ser ainda melhor pra mim do que eu imaginava.

 

Nesse tempo aqui já passeei com alguns amigos de amigos, já escrevi roteiros pra pessoas que nunca vi, já pude conhecer melhor pessoas com que tinha pouco contato, já levei novos amigos de infância pra comer delícias lisboetas. Teve gente que veio rapidinho, que só passou, que permaneceu uma temporada e gente que ficou pra sempre. A Fernanda é uma das pessoas incluídas nesse último grupo.

 

Graças à Ana Paula nos conhecemos e ela sempre ajuda a deixar meus dias por aqui ainda mais bonitos e divertidos. Eu e Fernanda temos várias coisas em comum. Medo de dar estrela quando éramos crianças, gosto musical, amor por Lisboa, sempre achar que vai dar tempo, ter a língua muito perto do cérebro, entre outras. Mas uma das principais, e extremamente presente em nosso dia a dia, é o apreço pela boa comida. Em especial a paixão pela boa comida feita em Portugal.

 

É verdade que comer mal por aqui é difícil, a pessoa tem que se esforçar pra que isso aconteça. E não sou só eu que penso assim. Alguém bem menos exagerado já disse o mesmo. Mas algumas dicas certeiras são sempre bem-vindas, né! E como eu e Fernanda temos como principal meta de vida conhecer e reconhecer os melhores restaurantes dessa cidade, quiçá do país, escreveremos frequentemente sobre os lugarzinhos que a gente adora. 

 

Segue o instagramzinho (@cafelisboeta) pra já começar a dar água na boca.