Praga é encantadora

A gente tinha acabado de chegar em Praga, deixamos nossas coisas no hotel e fomos pra rua. Garoava e andamos um tantinho até começarmos a avistar as lindezas que nos esperavam por ali. A chuva apertou e acabamos entrando no primeiro café que apareceu na nossa frente, meio desanimados com aquele tempinho maomeno. Terminamos o café e mais 5 minutos de caminhada bastariam pra eu perceber que meu coração era todinho de Praga. O colorido dos prédios, o tanto de gente na rua, os dourados, as vielas que parecem cenográficas. Eu só conseguia repetir e repetir que estava apaixonada. Gostaria de lembrar que o céu continuava cinza.

Nem o céu cinza consegue enfeiar Praga

A cidade estava lotada e isso me gerou duas emoções antagônicas: irritação e entusiasmo. Apesar da disputa por espaço, o clima de animação de todos era tão influente, que os sorrisos acabaram ganhando das caretas. Eu já imaginava que tinha alguma coisa séria acontecendo por ali, desde que comecei a pesquisar hospedagem com uma certa antecedência e não achei nada no centro da cidade. Simplesmente não tinha opção, nem as que a gente não poderia pagar. Por isso reservamos um hotel (muito bom, aliás) a poucas estações de metrô, mas 30 minutos andando, pelo menos, até o centro histórico. No final do dia e da viagem, isso faz bastante diferença. Não pesquisamos sobre esse fenômeno de amor repentino pela República Tcheca até chegarmos lá e entendermos rapidamente: tava tendo Copa. Campeonato Mundial de Hóquei no Gelo, mais precisamente. E Maratona. 2 eventos bem importantes e que levaram milhares de pessoas pra lá. Além disso, parece que Praga é uma das capitais preferidas como destino pra despedidas de solteiro (por aqui é um evento quase tão importante quanto o casamento em si) e assim, em cada esquina um motivo pra rir de um homem fantasiado toscamente seguido de um grupo de amigos uniformizados e felizes. Não sei se por tudo isso, mas com tudo isso, a sensação de estarmos numa festa era eterna e talvez esse tenha sido um motivo para fazer a gente se sentir tão bem ali.

Pessoas com camisas de hóquei cantando e batendo palmas em uma sala de restaurante. A ironia de existir um Museu Comunista bem do lado de um Mc’Donalds. Um grupo batucando samba, todo mundo vestido de verde e amarelo, pra animar os corredores bem nos últimos 500 metros da Maratona. Nosso primeiro jogo de hóquei ao vivo (ou da vida, no meu caso, sobre o que não posso dizer ter sido meu programa preferido nesses dias). O relógio e seu cuco, que fazem uma mini apresentação de hora em hora na Praça da Cidade Velha.  Marionetes várias espalhadas por lindas vitrines pela cidade. A sensação era de que o tempo todo tinha alguma coisa acontecendo, que talvez a gente não estivesse percebendo.

Se incluem aí as piadas internas de David Cerny e outros artistas contemporâneos que, espalhadas pela cidade, querem dizer muito mais do que o que a gente consegue ver só com os olhos. Cerny foi uma das coisas que eu mais gostei de descobrir nessa viagem. Suas obras são interessantíssimas e esperam uma reação de quem as encontra, mesmo que seja só na sua cabeça. Uma das mais conhecidas é a escultura de 2 caras fazendo xixi. Até aí, nada de muito novo, até que você olha pro chão e percebe q eles o fazem em cima do mapa da República Tcheca. E não é só isso! Eles escrevem coisas com o xixi, que podem ser sugeridas através de SMS’s que as pessoas enviam. Voltaria a Praga só pra descobrir todas as obras que esse cara expõe por lá. 

John Lennon e cor

John Lennon e cor

E também por outros motivos. Como esse muro aí de cima. Início dos anos 80 e a Checoslováquia (República Tcheca e Eslováquia eram um só país) ainda era governada sob forte influência de uma União Soviética já desgastada. A morte de John Lennon comoveu pessoas por todo o mundo e ali em Praga um grupo resolveu pintar num muro o rosto de Lennon. Obviamente a polícia repressora do país não admitiu aquilo e pintou tudo de cinza, sem qualquer gentileza, como geralmente agem os obcecados por muros cinzas. Mas o mais legal é que as pessoas também não admitiram a atitude da polícia e o rosto de Lennon, acompanhado de frases de esperança, foi redesenhado inúmeras vezes. Todas as vezes em que o muro foi coberto com a intenção de fazer com que as ideias daquelas pessoas desaparecessem, o muro foi recolorido. E ele tá lá, cheio de cor até hoje, quando eventualmente ainda acontece de ser coberto de tinta branca pelo dono do local. Mas o Lennon e a liberdade sempre ganham.

Aliás, o colorido também presente na arquitetura foi outra coisa que contribuiu pra eu gostar de cara da cidade. Muitas expressões arquitetônicas chamam a atenção em Praga, como a Ponte Carlos e tudo no Castelo, mas a cor sempre acaba exercendo uma atração muito forte sobre mim. O tempo todo encontramos prédios coloridos, muitos em tons pasteis, vários com mais de uma cor. Herança da Arte Nova que dominou a cidade no século passado. Foi a primeira imagem que me chamou atenção quando chegamos e que ficou gravada em mim como uma das características mais queridas em Praga. O rio Moldava, eu de um lado observando a outra margem enfeitada por prédios coloridos e combinando entre si. Um cenário enorme montado bem na nossa frente esperando pra ser explorado.

Cerveja tcheca e dumplings no Lokal

Exploração essa que passa sem dúvida pela comida (e bebida!) local. Eu não sou a maior apreciadora de cerveja, mas devo dizer que a cerveja em Praga foi um dos pontos altos dessa viagem. A maioria dos lugares onde comemos produzia sua própria cerveja, o que eu já acho o máximo, e sempre muito boas. Pra acompanhar, goulash (uma espécie de cozido de carne e legumes) ou os sempre presentes dumplings (uma espécie de massa feita com pão ou batata) e carne com molho. Nossos lugares preferidos foram o Lokal e o U Fleku.

Quando fomos embora de Praga eu já tinha vontade de voltar. Terminar de escrever esse post agora, quase 1 ano depois, me trouxe um desejo ainda maior de ver tudo isso de novo.

Cidade Velha

Viena é extraordinária

Saímos cedinho de Budapeste num trem esquisito, mas baratinho. Aliás, menção honrosa a esse site, Seat61, que fez minha esperança turística ressurgir. Estava triste e cabisbaixa achando que a maior lenda dos últimos tempos era dizer que trem na Europa era barato. Muitas pesquisas e chegando à conclusão de que seria bem menos oneroso (e bem menos legal) fazer nossos trechos de avião que de trem, encontrei esse site que te mostra as companhias nacionais e regionais de cada país, e assim os deslocamentos de trem couberam no nossos orçamento. O site pra comprar a passagem da Hungria pra Áustria é tão tosco que, mesmo que eu tivesse encontrado sozinha, acharia que era golpe e desistiria dessa opção. O Seat61 me deu o caminho e a coragem (tanana-nanan). E deu tudo certo! 

Chegamos em Viena na hora do almoço a tempo de aproveitarmos nosso primeiro dia (de quatro) quase inteiro. E aproveitamos mesmo. Devemos graças à nossa pior hospedagem (ou segunda pior) do Airbnb. Como não queríamos ficar muito tempo no nosso apartamento sujinho, ficávamos muito na rua, adiando a volta pra casa. A gente devia denunciar aquele ap pro governo, pq ele é totalmente o contrário de toda a perfeição que a gente via do lado de fora. Até o sapateiro tem uma vitrine arrumada, limpa e linda. Não é possível que Viena permita que um apartamento seja fedido como esse que a gente ficou.

Stadtpark, Leandro e uma senhorinha elegante

Stadtpark, Leandro e uma senhorinha elegante

O tempo todo, pra todos o lugares que você olha, Viena parece estar dizendo: sou um império. Demorei pra me acostumar com essa cidade. Na verdade, acho que fui embora sem me acostumar. Às vezes eu achava que não estava nem vestida adequadamente pra andar em Viena. Não por causa das pessoas, mas por causa da arquitetura mesmo! Ninguém tava combinando com aquela suntuosidade toda. A impressão que eu tenho é que eu nunca mais vou conseguir usar essa palavra, "suntuoso", tão bem aplicada. O certo seria que eu estivesse usando um vestido do século passado, pesado, um penteado bem bonito na cabeça, joias. Mas nesse caso não daria pra andar de bicicleta.

E esse foi um dos pontos altos desses dias. Leandro sempre insistindo nesse transporte e eu sempre enrolando. 2 motivos principais: impossibilidade de curtir as coisas com mais tempo e atenção, já que não é aconselhável ficar olhando pra cima e pros detalhes da cidade e por termos de tomar conta das bicicletas (dentro desse motivo está o fato de tirar menos fotos) e o segundo é que me sinto insegura. Se não fosse Viena não estaria aqui pra escrever essa historinha pra vc. Em qualquer outro lugar teria sido atropelada. Queria aproveitar e mandar um beijo pros vienenses que são pessoas calmas e educadas, respeitam os limites baixíssimos de velocidade, compreendem a postura de pessoas que cresceram em lugares sem ciclovias (e com isso não aprenderam a lidar com essas regras ciclísticas) e sequer me xingaram. A gente não conheceria metade dos lugares que conhecemos se não estivéssemos de bicicleta e conseguimos parar bastante pra aproveitar os parques e o espaço aberto. Além disso, é tão barato e tão fácil de alugar uma bicicleta em Viena que vale só pra ter a experiência.

Hundertwasswerhaus

Hundertwasswerhaus

Pedalando, demos literalmente a volta na cidade, passando pelo Prater, um parque onde fica a roda gigante mais antiga do mundo, e também pelo Stadtpark, pra admirar as tulipas da época. Demos um "oi" pra casa do Freud e passamos um tempão admirando a Hundertwasswerhaus (o predinho colorido e desajustado aí de cima) e tentando entender a arte desse arquiteto genial. Paramos pra almoçar embasbacados com a beleza do Belvedere e mais de uma vez voltamos pra casa pelas ciclovias da cidade. 

Sonequinha da tarde no Schönbrunn

Sonequinha da tarde no Schönbrunn

Um dos lugares mais sensacionais é, sem dúvida, o Palácio de Schönbrunn e os jardins e florestas que o cercam. Quando fomos visitar esse lugar, o dia estava lindo e decidimos não entrar no Palácio, mas ficar só aproveitando o solzinho nos jardins. Não estávamos no clima de ficar visitando quartos barrocos nos quais nunca dormiremos. O lado de fora já é suficientemente real (no sentido de realeza, e não de realidade). É bem impressionante a forma como todo aquele espaço foi pensado e costruído. Pra qualquer canto que se olhe a impressão que temos é de estarmos dentro de um quadro pintado a partir das mais perfeitas ideias de aplicação da perspectiva e combinação de cores. E olha que as florzinhas ainda não estavam aparecendo por lá. Ricamente hipnotizante. Do Palácio pra Gloriette e vice-versa. Andamos, apreciamos e comemos absorvidos por aquela vista e a sensação escancarada de que estávamos passeando por um lugar que não foi criado pra que pessoas como nós aproveitassem. O único dinheiro que gastamos por lá foi com o ingresso simples pra entrar nos Labirintos, que são muito bem-feitos, bonitos e divertidos.

Em outros momentos de "não-tão-dia-lindo-assim", aproveitamos pra conhecer alguns dos museus mais importantes da Europa. O Kunsthistoriches, além de ficar num prédio lindíssimo, recheado de detalhes que já valeriam a visita, tem uma exposição muito completa e cheia de informações. O Albertina estava com uma exposição temporária super bonita, além dos Picassos, Renoirs e Kandinskys da coleção original, e também fica num prédio especial do séc. XVII.

Vienenses chegam de patinete prum cafezinho no Café Prückel

Vienenses chegam de patinete prum cafezinho no Café Prückel

Pra terminar, os maravilindos cafés vienenses. Dos mais clássicos, como o Café Diglas, o Museum, e o Prückel, aos mais alternativos, como o Das Möbel, com móveis coloridos e modernos que estavam incluídos no cardápio pra quem quisesse comprar. Diariamente à tarde a gente parava pra comer uma gordice e passar um tempo aproveitando esses espaços. Em todos, o famoso strüdel (com tudo quanto é recheio, não só maçã), que é garantia de satisfação. O capuccino foi minha bebida preferida pra acompanhar esses docinhos. A maioria desses cafés ficam abertos o dia inteiro e servem refeições nos horários de almoço e jantar. Mas sobre a parte salgada, a melhor salsicha da temporada comemos em um quiosque, do ladinho do Albertina. No Bitzinger (eles também tem uma lojinha na Währinger Straße 14), você pode pedir a salsicha no pão ou cortadinha com pão à parte. Uma dica pra quem não é fã de pimenta: o que parece queijo ralado na verdade é uma raiz forte (rábano) capaz de desentupir o mais congestionado dos narizes com apenas uma garfada!

Passaria mais 4 dias por lá sem pensar duas vezes. Faltou muito quadro do Klimt pra ver, muito doce pra comer e muito museu pra admirar. Não posso dizer que Viena fez meu coração bater mais forte e acelerado (exceto quando achava que ia cair da bicicleta), mas mesmo assim fui embora com a certeza de que voltarei. 

A rota do bacalhau

A primeira pergunta de 11 em cada 10 brasileiros que encontro ou recebo aqui é: Carol, onde é que eu encontro um bom bacalhau por aqui, hein?

É claro que chegar em Portugal com fome leva a esse tipo de pergunta. Tá no nosso imaginário e ganhou o nosso gosto. Brasileiros amam bacalhau, esse peixe que se tornou tradição em nossas casas e que, de tão especial, é geralmente servido em ocasiões raras. 

Bacalhau é o que há de mais básico na culinária portuguesa. E olha que ele nem existe por esses mares atlânticos. Eles gostam de frio e vivem nos mares do Norte e há muitos anos se tornou profissão e tradição portugueses irem pescar bacalhau pros lados de lá. Portugal sozinho consome 25% de todo bacalhau que se pesca no mundo e já ouvi por aí que é o prato principal de cerca de 300 dias no ano de grande parte das famílias. É como o nosso arroz e feijão e, da mesma forma, é uma instituição, sendo eles super exigentes com sabor e preparo.

Todo o peixe pode ser aproveitado. Nas lojas que vendem especificamente bacalhau, a gente encontra cestos só com línguas (sim, além de cabeça, ele tem língua), barbatanas e tudo o mais. E há receitas específicas pra que cada parte do peixe seja utilizada da melhor maneira. Por exemplo, no "bacalhau com natas" e no "bacalhau à brás" vão a parte mais fina do peixe desfiada. Já o lombo do bicho, que é a parte mais grossa e mais gostosa, é usado no "bacalhau com broa" e no "à minhota".

Apesar de não ser difícil encontrar um bacalhau delícia por aqui (a maioria dos que comi são melhores que o melhor bacalhau que já comi no Brasil) também não é como minha tia Edna imaginou: não, não são servidos dezenas de tipos de receitas de bacalhau em qualquer restaurante português. E Portugal não é só bacalhau não! Eles tem muito mais a oferecer em termos culinarísticos. Quem ler verá.

Sobre os bolinhos de bacalhau, nossos velhos conhecidos, aqui são chamados de pastéis de bacalhau e avisamos que pode acontecer uma certa decepção quando você pedir por eles. Não pelo sabor, mas pelo fato de que são frequentemente servidos frios. Fritos pela manhã, ficam expostos para a venda durante o dia, e isso faz toda a diferença. Pra quem achar a mistura de sabores interessante, recomendo o pastel de bacalhau recheado com queijo da Serra da Estrela, vendido numa lojinha que abriu recentemente na rua Augusta. Mas não esquece de perguntar se tá quentinho!

O meu bacalhau preferido é o "à lagareiro" que Leandro faz aqui em casa e sempre fica uma delícia! (Não conta pra nenhum português, mas ele usa o congelado!) Depois desse, o mais gostoso que provei foi o do Largo. Feito a 80 graus, uma temperatura bem baixa pra se assar qualquer coisa, inclusive bacalhau, além de bem molhadinho, a textura é ótima. Detalhes importantes: vem pouco e é caro. Bacalhau não é meu peixe preferido e eu posso ter sido influenciada pelo ambiente desse restaurante, que é super bonito e agradável, cheio de aquários com águas-vivas hipnotizantes. Fica aqui o registro de que minha opinião pode, então, não ser das mais honestas.

Como a pessoa que mais gosta de bacalhau nessa casa é o Leandro, teremos uma participação especial! Pra ele, o bacalhau com broa e grelos do Sacramento é o melhor q ele já comeu. Não só o peixe é de qualidade e está dessalgado na medida certa, como o restante dos temperos utilizados no prato dão o toque perfeito e harmônico. Ah, o chef é brasileiro.

Pra encerrar, mais algumas indicações de onde encontrar mais delícias com esse peixe. No Café Lisboa tem uns nuggets de bacalhau muito gostosinhos; a Taberna da Rua das Flores tem uma salada deliciosa chamada "meia desfeita de bacalhau", que leva além do peixe, ovo, cebola e grão de bico; o burguer de bacalhau com grelos em bolo do caco do Prego da Peixaria também vale o pedido. Esse da foto aí debaixo é de um bacalhau que comemos num restaurante num lugar lindo, o Azenhas do Mar, e tava bem bom. E antes de ir embora, não deixe de passar em uma loja de conservas, ou no mercado, e comprar bacalhau enlatado. Pode apostar, é uma iguaria!

Esse assunto poderia render infinitamente, mas vai render só mais um post. Com as dicas da Fernanda, que é bem mais entendida do que eu.

Budapeste é sensacional

Faz um tempo eu queria conhecer essa cidade. O primeiro motivo de atração foi o seu nome, sem dúvida. Acho essa palavra muito sonora, engraçada e curiosa pelo fato de que foi formada pela simples junção entre as palavras que nomeavam duas cidades, cada uma de um lado do rio Danúbio, que se uniram pra formar a capital da Hungria. Eu ainda não sabia que tinha uma terceira cidade nessa fusão, Óbuda e hoje até penso que seria mais bonito ainda se fosse Óbudapeste, com um certo tom de drama teatral. De qualquer forma, já estava suficientemente atraída por muitas outras razões.

A Hungria é dona de uma história muito confusa cheia de altos muito altos e baixos muito baixos. Foi a segunda capital do império austro húngaro até o início do séc XX, quando este se dissolveu. E alguns anos mais tarde, viveu 2 regimes totalitários seguidos que trouxe muito sofrimento pra população.

Mas tudo isso fez com que ela seja o que é hoje. Seja na visão do ser humano individualmente, quer quando olhamos pra uma sociedade inteira, a nossa história é o que faz a gente, né. As marcas e lembranças estão dentro dos húngaros, mas eles são muito mais que isso. Foram só 3 dias, mas tivemos uma sensação muito agradável em lidar com eles e em ver como eles se tratam. Não percebemos qualquer peso. Em geral as pessoas muito simpáticas e solícitas. Mesmo quando não falavam inglês.

Leandro pegou um gosto pela língua húngara e eu acabei super influenciada. A verdade é que apesar de Chico Buarque falar que essa deve ser a língua falada pelo diabo, e eu não ser ninguém para discordar de Chico, achamos o húngaro falável, aprendível, com fonemas que nós brasileiros conseguimos repetir. Diferente de umas outras línguas por aí que prefiro não nomear e que ainda teríamos que lidar com. Achamos até gostosinha de ouvir! Depois do choque inicial com as tremas e acentos milhares, não é tão complicada assim. Tamo louco, gente?

Ficamos 3 dias inteiros por lá e eu achei um tempo ótimo, mas deu vontade de ficar mais sim. Quase sempre dá. Se paixão fosse escolha, Budapeste teria sido meu destino preferido nessa viagem. E esses são os motivos.

{Buda} Nos hospedamos nesse apartamento maravilhoso, colado na Ópera, num ponto bem central em Peste, que fica do lado direito do Danúbio. Mas amamos atravessar a Széchenyi Lánchid (Ponte das Correntes) pra conhecer Buda. Do lado de lá tudo lindo: a Igreja de São Matias (Mátyás Templom) e suas telhas esmaltadas coloridas (acertei, Camille?), casinhas coloridas, música na praça, o Bastião dos Pescadores (Halászbástya) com seus arcos fotogênicos emoldurando a vista sobre o rio, o Parlamento e sobre o próprio bastião; árvores floridas. A primavera, aliás, trouxe uma atmosfera encantadora. Foi mágico andar pelos arredores do Castelo assistindo a chuva de flores de cerejeira caindo sobre a gente e forrando o chão de rosa, por conta do vento forte e gostoso que batia. Ficamos tão absorvidos por aquele momento que acabamos andando em círculo sem perceber e quando vimos estávamos no mesmo lugar de onde tínhamos saído. Perdidos e agradecidos.

{Parque da cidade (Városliget)} É uma enorme área verde bem no meio da cidade e lá dentro fica o Castelo Vajdahunyad, que foi construído para comemorar o milênio da Hungria e, justamente pra fazer referência à história do país, reúne vários estilos arquitetônicos num mesmo prédio. No centro dele, jardins cheios de tulipas. Raras e lindas, elas estavam ali aos montes enfeitando o cenário. A primavera é uma ótima época pra se conhecer qualquer lugar, mas eu amei ter escolhido justamente essa estação pra viajar pelo Leste Europeu. Do outro lado do parque, outro ponto alto de uma visita à Budapeste. Fomos conhecer os Banhos Termais Széchenyi, um dos mais famosos e antigos dessa que é a cidade com o maior sistema de águas termais do mundo e graças à dominação turca ganhou essa tradição. Foi muito relaxante (e até curativo) termos terminado o nosso dia por lá, pulando de piscina quente pra piscina fria pra piscina muito quente. Mas não deixa de ser muito engraçado, especialmente pra quem cresceu em Angra dos Reis, ver as pessoas se divertindo tanto no piscinão.

{Comida} Provamos muitas delícias por lá e isso é essencial pra que eu goste verdadeiramente de um lugar. Goulash, salsichas várias, sopas com ovo pochê (paizinho fazendo comida austro-húngara lá em casa e eu nem sabia!), magret de pato (especialmente bom no Menza). Por todo lado vc vê langós, que é tipo uma pizza e o molho mais tipicamente usado é uma espécie de creme de leite ao invés de tomate. A gente experimentou uma(s) no Goszdu Udvar, uma ruazinha cheia de bares, restaurantes e cafés. No meio da tarde, capuccinos e doces deliciosos como o do Café Auguszt. E pra trazer as melhores lembranças de sempre, as que se comem, no Mercado Central encontramos uma oferta enorme de 2 produtos húngaros bem famosos: páprica e foie gras.

{A rua} Budapeste é uma cidade pra se aproveitar o lado de fora. Adoro museus, mas a possibilidade de não ter compromissos e horários, só se encantar pelas coisas que iam aparecendo na nossa frente, é igualmente adorável. O tempo estava ótimo, então foi perfeito pra nossa intenção de andar e andar até cansar. No meio do caminho encontramos um piano disponível pra quem quisesse tocar e outro que virou vaso de flor. Vimos apresentação de balé contemporâneo bem em frente à Ópera. Paramos pra observar o Memorial "Sapatos à margem do Danúbio" e pensar o que devem ter sentido os judeus que tiveram que tirar seus sapatos antes de serem assassinados e terem seus corpos carregados pelo Danúbio gelado. Vimos pessoas fantasiadas e felizes andando de bicicleta num domingo de manhã.

{Ruin pubs} Antes de chegar na cidade já tinha achado a ideia o máximo e chegando lá foi muito interessante ver isso de perto. No início dos anos 2000, prédios e casas abandonados no centro da cidade começaram a ser habitados por bares e boates, trazendo gente e diversão pra uma atmosfera decadente. Pra combinar com tudo isso, os móveis e decoração trazidas pra esses lugares eram antes coisas que tinham sido descartadas por outras pessoas, dando nova função e uso a objetos que vieram do que chamamos lixo. É comum esse tipo de bar mudar de lugar ou fechar e abrir anos depois. Geralmente esses bares, como o Szimpla Kert, um dos mais famosos, ocupam um prédio inteiro e a exploração do lugar inclui passar por diversos ambientes com clima, cores e música diferentes. O Instant também é bem conhecido, mas apesar de por fora parecer bem "arruinado", por dentro é mais arrumadinho (um simples papel de parede já carateriza isso). A rua Kazinzy tem vários pubs super legais, entre ruin pubs e outros nem tão ruin assim, alguns em espaços abertos, que fecham no inverno, e visivelmente mais novos. Dava pra passar uma temporada em Budapeste só visitando os pubs de lá, que muitas vezes funcionam o dia inteiro.

{Vi e não gostei} Horror House. A Horror House é famosíssima pelo que expõe e pelas críticas que sofre. Apesar disso, quando passamos lá em frente tive muita vontade de entrar. E acho q é isso mesmo q mais me incomodou por lá, a intenção de chamar atenção é muito grande e notória. O museu trata das décadas de horror vividas pela população do país de meados até o fim do século XX, em decorrência da II Guerra Mundial, nazismo e regime comunista que dominaram o cenário por lá. Não há dúvidas de que esse cenário foi extremamente cruel e triste. O que me incomodou foi os criadores daquele museu acharem que precisam colocar uma música de rock pesado pra fazer com que as pessoas sintam que o que aquele povo viveu foi realmente horroroso. Eu acho que esse assunto é suficientemente horroroso por si mesmo, não precisa de qualquer artifício pra colocar os observadores num determinado estado de tensão. Nas paredes, praticamente só se lia húngaro e isso também me distanciou da exposição.  Saí de lá como se não tivesse entrado e por isso me arrependi um pouco de ter perdido aquele tempo por ali.

{Não vi e acho q gostaria de ter visto: Parlamento} Chegamos lá e ficamos um bom tempo observando e fotografando aquela construção lindíssima. Por dentro, pelas fotos, tudo parece lindo também, mas quando chegamos à bilheteria, descobrimos que aquele dia não haveria visitas porque estava acontecendo um evento especial lá dentro. Na próxima vez que formos a Budapeste procuraremos olhar com antecedência a agenda deles. Porque certamente haverá uma próxima vez.

Cafê

Eu tenho muitos amigos. E a maioria deles é bem legal. Não se preocupem, não citarei nomes dos que estão incluídos na minoria. E quando viemos morar em Portugal, pensei que seria quase impossível fazer novas amizades tão importantes pra mim quanto as que eu já tinha. Achava que meu coração já tava lotado e tava bom assim. Na primeira semana eu já entendi que eu tava errada e que Lisboa podia ser ainda melhor pra mim do que eu imaginava.

Nesse tempo aqui já passeei com alguns amigos de amigos, já escrevi roteiros pra pessoas que nunca vi, já pude conhecer melhor pessoas com que tinha pouco contato, já levei novos amigos de infância pra comer delícias lisboetas. Teve gente que veio rapidinho, que só passou, que permaneceu uma temporada e gente que ficou pra sempre. A Fernanda é uma das pessoas incluídas nesse último grupo.

Graças à Ana Paula nos conhecemos e ela sempre ajuda a deixar meus dias por aqui ainda mais bonitos e divertidos. Eu e Fernanda temos várias coisas em comum. Medo de dar estrela quando éramos crianças, gosto musical, amor por Lisboa, sempre achar que vai dar tempo, ter a língua muito perto do cérebro, entre outras. Mas uma das principais, e extremamente presente em nosso dia a dia, é o apreço pela boa comida. Em especial a paixão pela boa comida feita em Portugal.

É verdade que comer mal por aqui é difícil, a pessoa tem que se esforçar pra que isso aconteça. E não sou só eu que penso assim. Alguém bem menos exagerado já disse o mesmo. Mas algumas dicas certeiras são sempre bem-vindas, né! E como eu e Fernanda temos como principal meta de vida conhecer e reconhecer os melhores restaurantes dessa cidade, quiçá do país, escreveremos frequentemente sobre os lugarzinhos que a gente adora. 

Segue o instagramzinho (@cafelisboeta) pra já começar a dar água na boca.

Porque fazer hoje se posso fazer amanhã

Eu, como ser humano que sou, tenho muitos defeitos. Uns incomodam a todos, outros só a mim, outros só a quem convive diariamente comigo (bjo, amorzinho). Tem os sempre presentes desde o nascimento e tem os que somem com o tempo. Dos defeitos é difícil fugir. Quem o fez está no céu. De qualquer forma, com a convivência a gente aprende (ou acha que aprende) a lidar com eles, de uma forma boa ou não, mas vai se esquivando e se virando. O que eu percebi há algum tempo é que o problema não são nossos defeitos, mas o apego que a gente tem a eles. Quando a gente sabe que aquilo não é legal, mas a gente gooosta daquela qualidade torta na nossa personalidade.

Eu sou uma procrastinadora. A frase aí do título guia a minha vida. Esse post mesmo está escrito há semanas e eu não posto. Ontem eu tinha me programado pra fazê-lo hoje e agora mesmo eu estou em casa, sem nada pra fazer (de urgente, já que eu também adio a faxina), e tô caçando coisa na internet pra assistir.

Isso não é de agora, que não tenho lá muitos compromissos na vida. Quando éramos crianças, o Lipe, meu irmão, chegava em casa com o dever de casa pronto. Ele recebia no final da aula, já fazia ali mesmo, antes de voltar pra casa. Eu chegava com o dever e ficava até o último minuto antes da hora de dormir com aquilo no colo, ou na cama, entre programas de TV, leituras que não tinham nada a ver com os exercícios da escola, e outras formas de enrolação.

Tenho esperança de me livrar desse probleminha, porque existem outros dos quais eu tenho me sentindo mais afastada depois que eu percebi que a chave é o desapego. Coisas que adorava e que  comecei a achar isso estranhíssimo. De vez em quando dou uma escorregada, volto a flertar com meu orgulho, intolerância, intransigência, mas como eu não gosto mais deles, rapidamente percebo quando estou dando ruim. 

Provavelmente a procrastinação é a coisa que mais me incomoda em mim mesma atualmente. Apego. Talvez seja medo de ser arrebatada. Não sei. 

Tudo isso é pra explicar porque esse blog vive sendo abandonado apesar do meu amor por ele, pela minha vida lisboeta, pelas viagens por aqui e pelo compartilhar. Mais uma vez venho aqui me comprometer comigo mesma a escrever sempre. Quero muito que o meu apego à procrastinação seja menor que o meu apego a esses escritos. Por hoje, desejo atendido. 

Amor à primeira aterrissagem

Uma viagem à Escandinávia na primavera foi o que planejamos, eu e meus pais, (infelizmente meu companheiro preferido de vida e viagens não pôde ir), com o objetivo principal de conhecer a Suécia. "Mas a Dinamarca é ali do lado." "Copenhagen parece ser tão linda." Ouvia essas coisas dentro da minha cabeça. Uma passadinha de 2 dias por lá foi, então, incluída. E ainda bem que o fizemos.

Copenhagen ganhou meu coração assim que eu saí do metrô e vi o primeiro telhado aparecendo à medida que subia as escadas. Depois vi muitos pães bonitos pelas padarias no caminho. E depois, vi o dono do apartamento em que ficaríamos, sentado na calçada em frente ao prédio, sorrindo e aproveitando os raios de sol quentes que incrivelmente (naquela época do ano) ainda abençoavam a cidade.

Deixamos nossas coisas e já fomos descobrir que os belos pães também eram gostosos e que "nosso bairro" era super agradável. A 10 minutos do centro foi o lugar ideal para conseguirmos entender um pouco como a cidade funciona, perto o suficiente para passear, mas podendo abandonar a horda de turistas no fim do dia. Partimos pra uma incursão ao mercado, que é dos nossos programas preferidos. Sendo que meu pai leva essa predileção a um nível extremo e acabamos tendo que implorar pra irmos embora. Era assim quando eu era criança e é assim hoje. Mas também não dá pra reclamar muito, porque depois ele faz mágica na cozinha com aqueles ingredientes e, em qualquer lugar, nos oferece as melhores refeições do mundo.

As bicicletas e a forma como as pessoas se relacionam com aquele meio de transporte é um capítulo à parte. A variedade de tipos, as crianças de 2 anos andando nas suas próprias (sem pedais, com habilidade e equilíbrio incríveis), a velocidade com que o pessoal anda, o respeito que todos tem pela faixa exclusiva, a hora do rush. Tudo digno de ser observado e invejado. Não faz muito tempo que a bicicleta é o principal meio de transporte por lá e na época em que ruas foram fechadas à passagem de carros e pedalar passou a ser bastante incentivado, eles não acreditavam que daria certo por conta do frio e da neve em grande parte do ano. Hoje, poucos trocam suas bicicletas por outro meio. Não importa se há chuva ou neve. Há coisas bem chatas nessas escolha, mas viver nessa cidade tão linda e passar boa parte do seu tempo trancado num carro parado no trânsito é mais chato ainda. As distâncias são pequenas, como é na região central de Niterói e eu não consigo parar de pensar em como seria lindo se isso acontecesse por lá. Mesmo com calor.

Outra coisa que me chamou atenção foi a beleza das pessoas. Descobri que o ideal de beleza ensinado por Walt Disney e seus amigos é dinamarquês. Super bem vestidos, corpos em muito boa forma, pele bronzeada, cabelos arrumados e loiros. Ou não. Num lugar onde todo mundo é loiro e tem olhos claros, talvez o contrário seja o que eles querem. Muita gente fazendo exercício físico nas ruas, além de andar de bicicleta pra lá e pra cá. Achei as pessoas muito simpáticas e felizes. Já escutei (né, Helô?) que não é bem assim na maioria das vezes, mas que eles estavam muito contentes porque o sol ainda tava dando as caras por lá. Pode ser. Pra mim tá bom. Escolhemos a época ideal.

Além de passear por aquelas ruas e observar aquela gente bonita, as coisas que eu mais gostei nesse pouco tempo foram:

{Nyhaun} Esse lugar foi o que preencheu o meu imaginário sobre Copenhagen. Casinhas coloridas à margem do rio, com barcos dispostos ao longo dela e muitos restaurantes e bares. Por ali também alguns lindos exemplares da arquitetura dinamarquesa como a Ópera, o Palácio Real e a Igreja de Mármore.

{Kastellet} Uma citadela cercada por uma muralha em formato de estrela (óun) e recheada de campos verdes, moinhos e prédios lindos. Do lado de fora da muralha, na beira do rio, está minha única não- recomendação da cidade: a Pequena Sereia. Christian Andersen, o autor do conto, é dinamarquês e ali fizeram uma estátua em homenagem a uma de suas obras. O que se vê lá é uma reunião de turistas e suas máquinas imponentes em cima de uma escultura pequena e sem graça. É melhor gastar seu tempo aproveitando a quietude da citadela pra meditar. Ou vendo o desenho da Ariel, mais uma vez, quando chegar em casa pra descansar.

{Rundetårn} Subir a Torre Redonda já é interessante pois não são escadas que te levam até o topo,  mas sim uma rampa contínua, o que era ainda mais especial lá no século XVII, quando ela foi construída. Depois de andarmos pelo centro histórico, foi maravilhoso passarmos algum tempo sentadinhos só admirando as cores da cidade e o sol que se punha.

Fomos embora já querendo voltar. As moedas mais lindas que eu já vi estão guardadinhas pra quando precisarmos delas de novo. Perdemos a hora pra entrar no Castelo Rosenborg, não deu tempo de conhecer o Tivoli e não consegui encontrar Nathalia, minha amiga viking. Portanto, motivos mais que suficientes pra nos fazer programar uma nova visita. E também não foi tão triste ir embora, pois esperávamos muito pelo nosso próximo destino.

Pra renascer em Firenze

Nosso último destino da viagem à Toscana. A verdade é que o que nos levou à Toscana foi Florença. E o que me fez chegar à Florença foi o Renascimento. Explico. Há alguns meses tomei uma das decisões mais felizes da minha vida: comecei um curso de História da Arte. O assunto sempre me interessou, mas antes preferia perder tempo estudando o Código de Processo Civil eainda não tinha me aprofundado nesse interesse. Um dia aparece no meu facebook (naquela época em que ele me mostrava coisas bonitas e produtivas) uma escola de arte pertinho de casa. Morando na Europa, sem trabalhar, seria o momento ideal pra realizar esse sonho. E foi. Em outra hora também seria. Qualquer momento é ideal pra aprender sobre o que a gente gosta.

Logo de início, minha linda professora (que saudade que eu sentia de ter uma professora pra amar) nos falou sobre o Renascimento e a importância desse movimento pra Arte. Pra quem tá um pouco perdido, estou falando sobre belezas como as que Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael, por exemplo, produziram. O berço do Renascimento é a cidade de Florença. E todas as quartas-feiras piscava na minha mente: preciso conhecer esse lugar.

E lá eu aprendi ainda mais. E ensinei pro Leandro. Enquanto observava a arquitetura, os quadros, as esculturas e as cores. Ocre, mostarda, salmão, terra e seus tons. Imaginar que os mesmos passos que eu dava também já foram dados por artistas tão importantes, há mais de 500 anos atrás, é uma sensação que eu adoro. Olhos ávidos pra andar pelas ruas e pontes sobre o rio Arno. Olhos fechados pra descansar deitados no chão da praça do Palazzo Pitti.

Nunca visitar museus foi tão interessante e prazeroso. E olha que eu já curtia bastante esse tipo de programação. Gostei muito das Galerias Uffizi, pela quantidade de arte exposta e informações sobre o Renascimento, principalmente. E amei o Museo di San Marco, pela história e simplicidade que o lugar carrega, tornando ainda mais especial a apreciação dos frescos de Fra Angelico, um pioneiro no estudo e utilização de técnicas revolucionárias para a pintura.

Na Piazzale Michelangelo, avistamos Florença de cima. Pensava quão inspirados estavam os artistas que construíram toda aquela riqueza, que seria somada à beleza natural já criada pelo Arquiteto Maior. Outras visões, como a da Ponte Vecchio, tão presente em vários momentos históricos da cidade, são como quadros materializados, vivos. Fiorentinos e turistas dividindo espaços que, pintados sob a ótica renascentista, seriam protagonizados por Pedros, Marias e outros santos que viveram há tempos atrás.

Outra arte italiana extremamente famosa é a culinária. Nesses 2 dias e meio comemos muito bem. Mas tenho que confessar que estou ficando bem crítica depois de 1 ano morando em Portugal, onde a comida é quase sempre deliciosa. Além disso, meus dotes culinários tem sido aprimorados, graças a boas influências na minha vida portuguesa (né, Fernanda?!). A melhor refeição desses dias, então, foi degustada no "nosso ap", feita por mim, com massa fresca, tomatinhos, mozzarela de búfala e muito amor.

A Itália foi tão linda, mais uma vez, pra gente, que nem o fato de perdermos nosso vôo de volta pra Portugal pôde chegar perto de estragar nossa experiência! Conselho (e nota mental pra mim mesma): na última noite, se hospedem perto de onde seu vôo sai. Depois do desespero momentâneo (era Páscoa e os vôos estavam lotados) tivemos algumas horas de espera em aeroportos que nos permitiu rever nossas fotos e reviver nossos bons dias.

Grazie e arrivederci, Italia! Até daqui a bem pouquinho...

Com muito orgulho, com muito amor

Acordei e por alguns segundos acreditei que o que tinha acontecido ontem fosse só um sonho ruim. Estou triste. Profundamente triste. 

Quando Portugal foi goleado pela Alemanha, nós estávamos assistindo o jogo em um parque lotado. Parecia que Lisboa inteira estava lá. No primeiro gol surgiu uma tensão, mas as pessoas ainda estavam confiantes. E continuavam aplaudindo os lances em que Portugal tentava contra-atacar, mesmo que em vão. Até mesmo os momentos em que eles faziam besteiras descaradas. Porque é isso que um torcedor europeu faz quando o seu time ou seleção está perdendo: ele aplaude, pra motivar e mostrar que eles tão ali. No segundo gol a moral baixou bastante. No terceiro muita gente foi embora. No quarto a esperança não se via a quilômetros. Porque é isso que um torcedor português faz. Perde a esperança quando a situação tá feia. No jogo contra Gana, em que Portugal tinha que golear o adversário, eu estava torcendo muito mais do que qualquer português com quem conversei.

Ontem, quando acabou o primeiro tempo, eu estava completamente arrasada, mas ainda tinha esperança. Se eles fizeram 5, a gente também podia fazer. Ou, pelo menos, diminuir a diferença. Porque é isso que um torcedor brasileiro faz: é positivo e tem esperança quase até o fim. Talvez seja nossa fé que nos faça ser positivos, apesar de não parecer que somos quando eu entro no meu facebook. Mas eu sei que tá lá, eu me conheço e conheço esse povo. Quase até o fim. Porque antes do fim, o torcedor brasileiro perde a paciência e xinga os jogadores de sua seleção, além da presidenta do seu país e quem mais passar na frente. A nossa raiva e dor tem que ser posta pra fora e encontrar um culpado. Não sabemos sofrer calados.

Essa semana fez 1 ano que estamos morando em Portugal. O principal motivo que me faz ter vontade de voltar pro Brasil são as pessoas. O problema é que a maior razão que me faz não querer voltar são as pessoas. Muitas vezes as mesmas pessoas. É assustador como o brasileiro quer que o Brasil mude, mas não quer mudar. Vou contar uma coisa pra vcs: vc é o Brasil. Um país é feito de pessoas e se tem muita coisa errada é porque vc tá errado. O mundo não gira ao redor do Neymar, nem ao seu redor e, pasmem, nem mesmo ao redor de qualquer governante nesse mundo. Mas é vc quem determina como ele vai girar.

Até ontem eu queria estar aí no Brasil. Sentindo esse clima. Vendo os olhinhos dos estrangeiros brilhando com as caipirinhas chegando até eles no paraíso, como não cansa de repetir o marido gringo da minha amiga. Vendo quem disse que não ia torcer roendo as unhas. Vendo a união que só acontece quando é pelo futebol. Vendo o sorriso estampado na cara de cada jogador da Alemanha, mesmo antes do jogo de ontem. Tenho a impressão de que eles nunca foram tão felizes na vida. Amor não se controla, se sente.

Mas antes do final do jogo eu perdi a vontade. Fiquei com vergonha. Não por causa dos 7 gols que podiam ter sido muito mais. Com relação a isso eu sinto pena. Mas porque comecei a ouvir os gritos de ódio do brasileiro e é disso que eu sinto vergonha. Lembrei da nossa intolerância. De como a gente não sabe perder. De como a gente gosta de ser ignorante. De como a gente é capaz de detestar com a mesma força com que amamos. De como a gente só enxerga nosso próprio umbigo. Do quanto a gente gosta de cobrar dos outros sem exigir nada da gente mesmo.

É, não dá pra ganhar todas as Copas. Nem todos os jogos. Nem evitar ser goleado algumas vezes na vida. O Brasil perdeu pra Alemanha na Copa de 2014. E perdeu feio.

Mas eu prefiro lembrar que a Seleção Brasileira, o futebol do meu país, com seu gingado, seu jeito único de jogar, sua cor, sua cumplicidade, sua alegria, com a toda a emoção do mundo, rindo e chorando, é a única que tem 5 estrelinhas em cima de seu brasão. E a única que foi capaz de participar de todas as Copas.

O Brasil já ganhou esse ano. Ganhou porque pôde mostrar ao mundo que as nossas qualidades superam os nossos defeitos. Porque sediou a Copa das Copas. E eu só tô repetindo o que li por aí. Porque os gringos que achavam estar arriscando sua vida ao ir pro Brasil assistir o Mundial, foram arrebatados de paixão por um lugar de belezas infinitas e cheio de alegria, mesmo que seja sem razão. A nossa alegria não precisa de motivo. Vem de dentro. É mais forte que a gente. É minha maior saudade e meu maior orgulho.

Hoje, eu dou graças a Deus por não ser alemã, mas sim brasileira. Porque o que a gente tem no futebol, no nosso país, na nossa gente, é muito bom. Eu não quero que o meu país se torne uma Alemanha em nenhum sentido. Se for pra assistir o país do futebol e do samba jogar como a Alemanha, eu viro torcedora de golfe. Sabe igual a quem a gente tem que ser? Um lugar que se chama Brasil. A gente tem que jogar como a gente mesmo, do nosso jeito, só que melhor. Que seja assim, no futebol e na vida.

A gente chora de tristeza e de alegria. A gente é capaz de ir abraçar o adversário perdedor no fim do jogo. A gente quer ser rico, mas não quer que exista pobre. A gente ama receber e servir o outro. A gente acha que o que é melhor pra gente é o melhor pro mundo, A gente se acha esperto quando desrespeita regras. A gente faz a melhor música do mundo, estando longe de ser a mais perfeita. A gente se corrompe facilmente. A gente tem o nosso “jeitinho” e, quando usado pro bem, não existe nada mais sensacional. A gente acredita. A gente mente. A gente não gosta de desagradar. Nossas mães (ou pais) fazem a melhor comida do mundo. A gente faz amizade de infância quando já é adulto. A gente fala alto. A gente conversa. A gente xinga e briga. A gente se diverte e deveríamos andar pelo mundo ensinando isso. A gente samba, na mão, na voz e no pé.

Ninguém é só ruim. Ou só bom. A Alemanha vitoriosa de ontem há pouco mais de 2 décadas tinha um muro que dividia uma cidade ao meio. E joga futebol muito bem. E fabrica carros muitos bem. Hoje, passeando pela internet, parece que o Brasil é só ruim. O que é mais triste ainda do que a lavada de ontem.

Talvez, no dia em que aprendermos a valorizar o que temos de bom e melhorar o que temos de mau, uma vitória ou derrota no futebol não faça a menor diferença, pois continuaríamos orgulhosos. De sermos quem somos.

Brincadeirinha! O futebol brasileiro é o melhor do mundo e tem que ganhaaaar! hahahaha

Toscana è amore!

A Toscana é um dos destinos mais procurados por pessoas que vivem um romance e foi um dos lugares pelos quais quisemos passar para comemorar nosso quinto aniversário de casamento. Sim, já são 5! Mas com carinha de 2! Eis alguns dos fatores que mais nos encantaram por lá.

{A estrada} Montanhas, tons de verde, caminhos sinuosos, árvores agrupadas lindamente, vinhedos, resquícios da Idade Média. O caminho que se percorre é mais um dos fatores a serem apreciados quando se passeia pela Toscana. Viajar de carro por essa região é uma boa, pois te permite acompanhar a paisagem e parar quando quiser. Pra compor sua trilha sonora, sugiro essa canção.

{A Torre de Pisa}  Aí vc vai pensar: "Ah, mas eu não aguento mais a Torre de Pisa! É tanta foto, tanta gente falando sobre, que já até enjoei sem nunca ter estado lá! Chega de ouvir falar sobre ela!" Eu concordo. Mas como eu não vou ouvir, mas sim falar (ou escrever), lá vai! Esse lugar é simplesmente sensacional! Você não precisa fazer a foto que todo mundo faz, se vc acha ridículo. Basta sentar no Campo dei Miracoli e apreciar o milagre que é olhar pra torre e vê-la em pé. Um beijo pra equipe de engenharia que fez a burrada de construir uma torre tão pesada num solo inapropriado, mas que, assim, colocou essa cidade no mapa. E outro pro pessoal que deu um jeito de manter a torre existente e torta, tornando-a um quase arco. Nenhuma foto capta a imponência, beleza e torteza dessa construção. A sensação de que vai cair a qualquer momento não passa. E no final, vc já vai estar lá, fazendo pose pra tirar a foto que todo mundo tira! Ou pelo menos a foto da foto que todo mundo tira.

{A muralha de Lucca} Já tinha lido em alguns lugares que deveríamos alugar bicicletas e dar uma volta pela muralha da cidade. Estamos acostumados com a muralhas aqui em Portugal que são altas e bem estreitas e achei a sugestão aí de cima bem radical. Até a gente dar de cara com a muralha de Lucca e entendermos a dica. Muito largos, os muros se tornaram uma espécie de parque onde as pessoas passeiam com o cachorro, com as crianças, caminham, correm e pedalam. Foi uma delícia sentir o ventinho no rosto ao rodarmos aqueles 4 quilômetros avistando a cidade de cima.

{O melhor sorvete do mundo}  No meio de becos medievais de uma cidade que parece uma fortaleza, procure as filas e você vai encontrar os melhores gelatos do mundo. Em San Gimignano, mais precisamente na Piazza della Cisterna, fica a Gelateria Dondoli, que ganhou o prêmio de melhor sorvete do mundo durante alguns anos. Só a avistamos depois que já tínhamos entrado na fila da Gelateria dell'Olmo, que tem uma placa enorme onde se lê "the best ice cream in the world". Li por aí que é só marketing e nenhum prêmio,  mas o cone com fondente di cioccolato, fior de latte e nocciola que degustamos foi, sem dúvida, o melhor sorvete que já tomamos na vida. E olha que só nessa viagem eram uns 2 por dia! Só nos arrependemos de não termos voltado pra comprar outro.

{Uma catedral listrada}  E no meio do cenário escuro e medieval de Siena desponta o Duomo di Siena, em mármore predominantemente preto e branco, o que nos permite cair de amores por uma igreja estampada. Por dentro, colunas e paredes também listradas, além de outras belezuras dispostas naquele espaço monumental, como o chão decorado e esculturas. De boca aberta, passamos um bom tempo olhando pra fachada daquela igreja e acompanhando o movimento das nuvens refletidas no vitral redondo. Um santuário enorme, mas ainda minúsculo se comparado ao que ele tenta conter.

{Os cantinhos aconchegantes}  Escolher hotel pela internet, sem indicação, é sempre um risco. Nesses dias fomos agraciados com 2 boas surpresas: a Casa Soleluna, em Cortona e o B&B Il Callare, em Lucca. Os dois fora das cidades (o que é ótimo pra quem está de carro e precisa de lugar pra estacionar perto de onde vai dormir), novos e com ambientes super agradáveis, assim como os donos.

P.S: Como tem muita coisa por esse mundo internético sobre os lugares que visitamos, preferi falar de uma forma diferente sobre a nossa experiência. Mas se algum de vcs quiser um roteiro mais específico ou ajuda com algum detalhe sobre os lugares por onde passamos, pode me mandar um e-mail: anacarolalves@gmail.com.

As cinco terras

A melhor coisa de morar em Lisboa é justamente morar em Lisboa. A segunda melhor é que morar em Lisboa significa morar na Europa. Um continente que mais parece um país pra quem cresceu num país que mais parece um continente.

Todas essas palavras repetidas pra dizer que a facilidade em nos movermos por aqui tem nos levado a viver experiências sensacionais. A última delas repartida em 8 dias (e 3 posts) rodando pela Itália.

Nosso primeiro destino foi Cinque Terre. Essa região é um sonho antigo em nossas vidas. Planejávamos ir pra lá na nossa viagem de lua-de-mel, há 5 anos, mas não aconteceu. E desde então aquelas casinhas coloridas amontoadas nas montanhas viviam nos meus planos.

Nosso destino, a princípio, seria a Toscana, mas como nosso vôo chegava em Milão, achamos que o melhor caminho pra descer a botinha seria desviarmos suavemente até o litoral da Ligúria. Depois de muitos dias de ansiedade durante o planejamento desse roteiro, uma tristeza recai sobre mim. A previsão era de chuva. Pra todos os dias. E não mudava. Mas eu tinha esperança.

Chegamos na praia Deiva Marina, nossa base para conhecermos as terrinhas. Meu conselho é que façam suas reservas de hotel com bastante antecedência e, caso não fiquem em alguma das 5 cidades se hospedem em alguma cidade entre La Spezia e Levanto. Isso vai te fazer economizar tempo e dinheiro.

Acordamos em Deiva Marina e chovia. Chorei pra combinar. Eu tenho uma coisa pra te dizer: se você for pra Cinque terre e chover, se joga do alto do seu hotel e esquece. Ou respira e deixa pra se jogar de um penhasco no final do passeio. Essas foram as opções que eu considerei e acabei ficando com a segunda, já que tinha gasto muito tempo lendo sobre esse lugar. 

As coisas não melhoraram no início da nossa andança por Riomaggiore, a primeira das cidadelas, contando a partir de La Spezia. Leandro, cujo sobrenome deveria ser paciência, fez de tudo pra me animar. Mas tava complicado com a visão perturbada pelo guarda-chuva e vestindo uma (saco de lixo) capa azul. Paramos num lugarzinho chamado Siamo Fritti e um cone cheio de lula frita com limão já começou a melhorar meu humor. Quando estávamos totalmente equipados, claro, a chuva parou. E só precisei de 5 minutos pra cair de amores e perceber que chuva nenhuma ia me impedir de amar aquele dia. Aquele lugar é tudo que falam dele e mais um pouco!

A ideia era seguir pra próxima cidade a pé, através de uma trilha à beira do mar chamada Via del'Amore (óun!), mas a trilha estava fechada. Nem lá, nem no google, consegui informações precisas sobre o motivo, mas parece que a maioria das trilhas de Cinque Terre estão fechadas desde 2012 por conta das fortes tempestades que ocorreram por lá naquele ano. Usamos a linha de trem, então, pra fazer todos os percursos intercidades. Entre túneis e vistas pro mar, apreciamos os curtos trajetos.

O primeiro deles durou 3 minutos até chegarmos na lindinha Manarola. Encontro semelhanças com os bequinhos e as cores de Lisboa. E também com as favelas cariocas, já que tanto naquela vila quanto no Rio as casas parecem desafiar as leis da física. Quem sabe um dia as favelas virem um seguro lugar turístico em que seus moradores vivam felizes, como acontece por ali.

A cidade seguinte, Corniglia, é mais uma lindeza colorida cheia de casinhas incrustadas em pedras e plantações de uva subindo o morro. Amei as ruazinhas fechadas dessa cidade do meio. E aquele mar sem fim. Parece mentira, mas não é.

A próxima (e nossa última) foi Vernazza e lá ainda recebemos a benção de aproveitar o solzinho que surgiu no fim da tarde. Além de ter saboreado brusquetas de anchova e uma caprese divinas. Ou eu tava com muita fome.

Tava tão gostoso por lá que quisemos curtir um pouco mais o lugar, abrindo mão de conhecermos a última das cinque, Monterosso.

Ali, em Vernazza, eu descobri que Deus levou a gente pra Cinque Terre num dia de chuva só pra nos mostrar quão lindo é esse lugar em qualquer circunstância. Mesmo quando a gente não via, a Luz tava lá.

O que fizemos no verão passado

É difícil pra mim admitir, mas eu tenho que confessar: estou com saudades do verão. Do verão europeu, que fique claro! Esse inverno tem sido o mais chuvoso dos últimos 80 anos. 80 anos! E a gente aqui. Não tem como não ficar pensando naqueles dias azuis, no vento, nos sorrisos nas caras de todo mundo, nas saias e vestidos sem manga, na quantidade de gente que vem aproveitar isso tudo num dos melhores destinos europeus de verão. Pra lembrar com saudade e dar uma refrescada no povo aí do (Hell) Rio de Janeiro, alguns dos nossos passeios do verão passado:

{Passeio de moto até a Costa da Caparica} Leandro queria alugar uma moto. Eu tenho medinho de veículos com duas rodas que andam em alta velocidade, mas acreditei que poderia ser uma experiência legal. De qualquer forma, fiz cara de gatinho e pedi uma motinha vintage. Atravessamos o Tejo de ferry, conhecemos Almada e fomos rodar pela Costa da Caparica. Fotografamos praias lindas e em seguida fomos pra Lagoa de Albufeira. Que lugar sensacional! O mar faz sua entrada em uma faixa de areia formando uma lagoa, laguinhos e ilhotas. O vento estava fortíssimo e não dava nem pra contar o número de kytesurfistas que vimos por lá. No rasinho da lagoa, crianças brincando na água cristalina. Do outro lado, o mar com ondas enormes. 

{Berlengas} Desde o ano passado já pretendíamos conhecer essas ilhas que ficam perto da costa de Peniche, de onde pegamos o barco para chegarmos até o arquipélago. Digamos que a viagem de ida foi um tanto quanto emocionante. Eu cresci fazendo passeios de barco e realmente esse tipo de coisa não costuma me assustar. Nessa viagem, quando o barco parecia que iria finalmente virar, eu só pensava quanto tempo eu ia aguentar naquela água geladíssima! Chegamos sãos e salvos e muito tristes porque os metereologistas não têm bolas de cristal eficientes. A água em volta das ilhas é de um verde lindo e a gente só conseguia pensar em como tudo aquilo deve ficar maravilhoso em dias de sol. De qualquer forma, aproveitamos o tempo ali pra caminhar pela ilha e passear de bote, pra ver as grutas de perto. A viagem de volta no barco, obedecendo o sentido das ondas e do vento, foi beeeem melhor que a de ida e já deu pra pensar em planejar nossa próxima visita às ilhas.

{Lagoa de Albufeira} Voltamos na lagoa citada aí em cima um outro dia e a paisagem era completamente outra, e mesmo não sendo tão bonita quanto a que vimos no mês anterior, tal visão me fez gostar ainda mais desse lugar. Depois de um tempinho nos acostumamos com a água gelada e nos divertimos muito observando as mudanças do sentido da água e as marcas deixadas por ela na areia no final do dia.

{Cascais} Fica aqui do lado e é o principal destino de praia dos lisboetas. Uma cidade muito gostosa de passear, projetada pra que o mar seja admirado e aproveitado. Além da paisagem natural, também dispõe de uma beleza arquitetônica diferente da que encontramos em Lisboa e de bons restaurantes.

{Canoagem no Tejo} Alguns dos colegas de trabalho do Leandro programaram esse passeio e nós nos convidamos pra participar dele. Andaríamos de caiaque pelo rio na altura da região de Ribatejo, passando por uma ilha onde são criados cavalos. O dia estava quente e, apesar do lugar não ser tão bonito, foi uma experiência deliciosa "navegar no Tejo". Logo depois almoçamos sopa da pedra, que é uma sopa típica daqui, e secretos de porco preto, com os quais sonhamos até hoje. No outro dia não sentia meus braços e mesmo assim sorria.

Sobre Lisboa, com amor

Eu poderia citar inúmeros motivos pra você incluir Lisboa na sua viagem de lua-de-mel, mas o principal deles é que essa cidade desperta sorrisos em quem passa por ela. E como, nessa fase pós-casamento, já há uma tendência forte, por parte dos apaixonados, de sorrir, acredito que Lisboa somada a você e seu amor seja uma combinação perfeita. Abaixo algumas dicas pra você tirar o melhor desse lugar.

{Acorde tarde} Diferente de outras capitais europeias, Lisboa permite que acordemos mais tarde e possamos curtir cada dia com tranquilidade. A cidade é pequena e notívaga. No verão, andar pelas ruas às 10 da manhã pode te dar a impressão de que são ainda 7. E tem coisa melhor do que não se preocupar com a hora depois de toda a correria no pré-casório e cansaço de uma festa bem aproveitada? Quanto ao almoço, de qualquer forma, é bom tomar cuidado: os restaurantes, em geral, fecham às 15hs.

{Hospede-se na zona central} O centro de Lisboa é chamado de Baixa, que é o bairro que fica bem à beira do Rio Tejo e onde aconteceram fatos históricos importantes. De um lado da Baixa está o Chiado e do outro a Alfama. Na outra extremidade, de frente pro Tejo, está a Avenida da Liberdade. Todos esse lugares te garantem uma boa hospedagem já que a maioria dos pontos turísticos imperdíveis estão mesmo nessa região. Uma opção, com a vantagem de te fazer sentir o gostinho de como seria morar na cidade, é alugar um apartamento através do site Airbnb.

{Ande} A pé, pra descobrir becos singulares; de bonde, pra ver a cidade através de janelinhas charmosas; ou de elevador, pra subir as ladeiras mais íngremes. Não se preocupe em pular de um ponto turístico a outro, mas em desvendar, de mãos dadas, essas ruas de paralelepípedos e pedras portuguesas, com casas forradas de azulejos. Ande pela Rua Augusta, fotografe o Arco Triunfal, atravesse a Praça do Comércio, se perca ouvindo fado pela Alfama, passeie pelo Chiado, alugue uma bicicleta no Parque das Nações, caminhe por Belém e aproveite cada um desses passos.

{Olhe pra cima} A arquitetura tão rica em detalhes é característica marcante de todo o país. Em Lisboa você vai poder apreciar a arquitetura manuelina do Mosteiro dos Jerônimos e o estilo pombalino das construções da Baixa. Bem como o céu azul onipresente em boa parte do ano, especialmente emoldurado pelas ruínas do Mosteiro do Carmo. E suba, pra poder conferir, por exemplo, as vistas do Castelo de São Jorge, do Elevador de Santa Justa e da Torre de Belém.

{Delicie-se} A cozinha portuguesa, como a maioria de nós, brasileiros, conhecemos, é simples, mas extremamente apetitosa. Você pode encontrar verdadeiros tesouros gastronômicos em lugares mínimos, como a Adega dos Lombinhos ou em restaurantes com lindas decorações como o Sacramento. Pode-se comer na calçada, como no Pateo 13 ou no terraço, como no Terraço BA. Se quiser, belisque enlatados no Sol e Pesca ou experimente diversos pratos no menu degustação do 100 maneiras. Lembrando que a comida portuguesa não se resume a bacalhau: qualquer peixe é sempre divinamente preparado, assim como as carnes de porco.

{Beba café} "Uma bica, se faz favor." é o código pra se conseguir uma xícara de café expresso. Depois do jantar ou do almoço, os portugueses se deslocam até uma cafeteria ou pastelaria especificamente para fechar a refeição com um cafezinho. Acompanhado de um pastel de natas (o melhor fica mesmo na Pastéis de Belém), de um pão de Deus da Padaria Portuguesa ou de uma queijada em qualquer lugar,

é também uma boa opção prum lanchinho a qualquer hora. E pra tomar um desses com Fernando Pe

ssoa, é só ir à "A Brasileira".

{Ame} O que me trouxe até essa cidade foi o amor e talvez seja por isso que eu veja tanto romance nela. Espero que, da mesma forma, você possa aproveitá-la com o amor da sua vida e sejam imensamente felizes nesses primeiros dias de casados. 

OBS: Esse post foi originalmente publicado no blog lindo da Manu, o

Colher de Chá Noivas

!

Do tamanho do mundo

O mundo é tão grande. Nesse momento mais de 7.000 km me distanciam da minha família, que mora em Niterói. Isso hoje, porque há pouco tempo meu pai morava a 900 km da minha mãe e meu irmão passou uma temporada 400 km longe deles. (Astrid, querida, se quiser filmar um episódio de "Chegadas e Partidas" lá em casa, é só falar!) Aqui na Europa, segundo menor continente do planeta, tem uns 50 países e eu pretendo visitar mais ou menos metade deles. Fora os países que quero conhecer em outros continentes, dos quais estou mais perto, como África e Ásia. Tantas línguas, tantas culturas, tanta gente. Quando ando pelas ruas de Lisboa fico imaginando quantas pessoas já andaram por cima dessas pedrinhas. Portugal tem atualmente cerca de 10 milhões de habitantes. Menos habitantes que o estado do Rio, o terceiro mais populoso do Brasil. No mundo são mais de 7 bilhões, sendo que nasce mais de um bebê a cada segundo.

E no meio de tanta gente eu encontrei o amor da minha vida morando do lado da minha casa, em Angra. 14 anos depois de nos conhecermos, mudamos de hemisfério, o que foi feito em menos de 10 horas de vôo. Uma das coisas que trouxemos foi o cd da Laurinha, pra diminuir a distância, amenizar a saudade e entregar pra Luísa, uma amiga portuguesa que ela conheceu no Brasil. Conheci Luisinha, seu primo brasileiro, Mateus, que estava passeando por aqui, e sua namorada, Bia, que, assim, como eu, fez faculdade de Direito (o que não é coincidência, já que metade da população do Rio de Janeiro, segundo estatísticas minhas, fez) e depois fez EMERJ, por sinal, na mesma turma que minha amiga de faculdade Aline. E por falar em amigas de faculdade, amanhã vou almoçar com a Ana Paula, que, fiquei sabendo, por acaso, através do facebook, estudou Farmácia com Geisa, com quem estudei no cursinho e de quem fui vizinha. O facebook também me informa das andanças da Tati, com quem comi pastéis de Belém na semana passada e que conheci em Londres, através do Filipe. Ah, o Filipe é um amigo que fiz quando passei um mês no Sertão Nordestino e que atualmente é missionário no Líbano, onde vive com sua linda esposa, Cris, que, aliás, já frequentou a mesma igreja que eu em Niterói. Igreja cujas pregações (sobre o que existe além desse mundo que podemos dimensionar) eu assisto aqui mesmo, no computador. Como esse mundo é pequeno.

Sintra e seus palácios

Sintra é uma vila que fica bem do ladinho de Lisboa e geralmente está incluída nos roteiros turísticos de quem vem pra cá, já que em poucos minutos, de trem, de carro ou de ônibus, se chega lá. Um dia de passeio em Sintra quase te faz pensar que você é da família real. Mas pra conhecer bem o lugar é necessário mais que um dia, dada a quantidade de parques, palácios e castelos que se pode visitar. Aí embaixo, uma listinha dos principais.

{Castelo dos Mouros} Supõe-se que o castelo tenha sido construído em meados do século VIII pelos muçulmanos que ali moravam, tendo sua posse, juntamente com a posse de Sintra, sido alternada entre mouros e cristãos até o século XII. Mesmo após tanto tempo e destruição causada pelo terremoto de 1755, as muralhas que se vêem lá são ainda as originais. De lá de cima temos a vista de boa parte da região e do Atlântico, explicando o porquê do castelo ter sido tão disputado.

{Palácio Nacional de Sintra} Assim que se chega em Sintra, avista-se esse palácio e suas grandes chaminés em formato de cone. Desde sua construção, no século XII, já foi residência da família real e também utilizada como casa de verão, já que o clima em Sintra é bem mais fresquinho que em Lisboa. Com aquelas roupas que eles usavam, realmente devia ficar insuportável viver em Lisboa sem esse advento milagroso chamado ar condicionado.

{Palácio de Monserrate} Construído por um inglês em 1858 para se tornar a residência de veraneio da família, é um típico exemplar do romantismo português e de como os ingleses adoram Portugal. O trabalho de paisagismo dos jardins que o rodeiam ficaram a cargo de um botânico e um pintor. Deve ser por isso que as fotos parecem mesmo quadros.

{Palácio da Pena} Situado no ponto mais alto de Sintra, chama a atenção de qualquer um que passa por ali por causa do seu colorido. Foi construído no século XIX no lugar de um mosteiro que tinha sido muito afetado pelo terremoto de 1755. Com influências arquitetônicas mouriscas e manuelinas, o palácio é rodeado por um parque lindo acrescentando muito verde às suas cores.

{Quinta da Regaleira} Você acha que é um adulto maduro até chegar nesse parque e perceber como pode se divertir tanto ao se perder em labirintos, andar por tuneis completamente escuros e atravessar laguinhos através de caminhos de pedras. A Quinta da Regaleira é um lugar incrível e dá pra passar um dia inteiro (ou mais) fazendo trilhas por lá. O parque e suas construções aliam a arquitetura renascentista, manuelina e gótica às ideias do seu antigo proprietário, um sonhador apaixonado por mitologia e esoterismo. Não sei onde mais seria possível encontrar uma torre cuja base fica abaixo do nível do chão e seu cume na superfície. Fotos não traduzem a experiência que é explorar esse lugar.

Ah, antes de ir embora de Sintra é imprescindível passar na Pastelaria Piriquita (Rua das Padarias, 1) e saborear a tradicional queijada ou o delicioso travesseiro. Ou os dois.

O melhor de NYC

Pois é, vou eu me atrever a dar dicas sobre Nova York. Eu sei que todo mundo já fez isso e coisas escritas sobre essa cidade não faltam nas livrarias e blogs. Mas é justamente por isso que vou escrever. Se todo mundo já fez, porque não eu? :)

{O melhor cookie da cidade} Você encontra ao descer as escadinhas da Levain Bakery, na 74th com a Amsterdam Street. Eu nem sou muito fã de cookie, mas esse aí é outra categoria. Acho até que deveria receber outro nome essa coisa. Pra mim, o acompanhamento ideal pro cookie de chocolate (nunca tive coragem de comer outro sabor) é um copinho de leite gelado. Depois é só correr até o outro lado da cidade e pronto: calorias eliminadas. 

{O melhor hamburguer da cidade} Não foi saboreado exatamente na cidade, mas ali do ladinho, em Greenport. Preparado pelo Bryan e sua mãe, foi servido no rehearsal barbecue que aconteceu um dia antes do casamento. O hamburguer tava muito gostoso mesmo, mas degustar uma comida tipicamente americana num evento tipicamente americano em meio a pessoas tão tipicamente americanas tornou-o perfeito.

{O melhor milk shake da cidade} Fica num Shake Shack perto de você e tem sabor de chocolate, do melhor, derretido e gelado.

{A melhor hospedagem da cidade} É a casa da Mari e do Bryan! (Fica aqui um agradecimento especial ao Bryan - que, aliás, é o melhor bombeiro da cidade - por ter nos recebido tão bem em sua casa, por ter aturado várias vozes femininas falando português ao mesmo tempo, pelo chá gelado nos dias quentes, pela preocupação e pelo bom humor, mesmo nos dias em que tinha trabalhado milhares de horas seguidas!) Mas o endereço deles é revelado pra poucos. Na verdade eu acho que todos os 5 leitores do blog já conhecem esse endereço. Mas se você está lendo isso e não é amigo da Mari, minha sugestão, diante dos precinhos nada amigos dos hotéis de Manhattan, é que você alugue um apartamento num lugar não tão frequentado por turistas e finja que mora lá. Porque melhor que conhecer NY, é morar lá.

{O melhor parque da cidade} Cassia, uma amiga especialista nessa cidade, me apresentou o Bryant Park e nesse dia almoçamos lá. Eu amei de cara. Acho que gosto tanto dele porque numa cidade em que tudo é tão grande, onde tudo é tão overwhelming, aprecio lugares em que eu, estando em uma ponta, consiga avistar a outra ponta do ambiente. E porque lá eu me sinto muuuuito num filme. Tá, em quase todos os lugares de NY eu me sinto num filme. Mas desse filme eu gosto mais.

{A melhor loja da cidade} Um dia eu quero morar em NY. Mais precisamente dentro da Anthropologie. Fizeram esse lugar pra mim e acabaram esquecendo de me mandar o convite pra eu me instalar. E se eu morasse lá, consequentemente, não teria que gastar um centavo com roupas, louças e fofurinhas, porque tudo já seria meu. Quem sabe um dia?

{A melhor pessoa da cidade} É a Mari! Amiga, brigada por você morar aí!