Dia 32 - As pontes entre nós

Eu e Leandro crescemos em Angra dos Reis, uma cidade no litoral do Rio de Janeiro, que fica pertinho de Parati. Essa região foi descoberta pelos portugueses em 1502, na segunda expedição deles pra cá. Só 2 aninhos depois da chegada em Porto Seguro. Essa região carrega, então, muito do estilo que a gente encontra nas nossas andanças por aqui.

O tempo todo a gente dá de cara não só com as referências do Rio de Janeiro, mas também com as lembranças da nossa infância. Um pouco de Angra, que teve sua arquitetura muito modificada ao longo do tempo, e muito do que ainda encontramos (e acredito que para sempre encontraremos) em Parati.

Meu pai tem paixão por portas e janelas e a gente não tem conta de quantas fotos ele tem de portas das casas, igrejas e prédios históricos dessas cidades. Imaginem como ele ficou louco por aqui! Quando meus pais estiveram em Portugal, eu dizia que eu e minha mãe caminhávamos sempre o dobro do que ele andava no dia, apesar de teoricamente andarmos juntos. Isso porque nós duas estávamos andando e conversando quando percebíamos que tínhamos perdido o meu pai. E voltávamos procurando ele, que estava sempre com a máquina na mão, obcecado por alguma porta.

Outra coisa que a gente sempre repara é em como as ruas são estreitas e as calçadas ridículas, principalmente nas áreas e cidades mais antigas. Em alguns lugares nem há calçada, apenas uma marca no chão que delimita o espaço do pedestre e o do carro. E temos que andar em fila indiana.

E, claro, as pedras portuguesas, que tanto nos perseguem e acabam com nossos sapatos no centro do Rio. 1001 tipos de desenhos delas. Só que aqui tem um detalhe muito importante: elas são bem colocadas. Seus saltos não ficam presos nelas e não formam poças. Vivo andando e sorrindo quando chove e eu fico lembrando de mim na Praça XV fazendo uma espécie de "singing in the rain" patético. Segundo o Lipe, meu irmão (quase) engenheiro, o que acontece é que no Brasil as pedras foram colocadas sobre uma camada de cimento e aqui diretamente sobre a terra. Às vezes eu acho que o povo aqui devia fazer umas piadas sobre a gente.

Eu já ouvi muito brasileiro falando que veio pra cá e se sentiu em casa. É fácil. Há muitas coisas que nos ligam. E eu adoro encontrar com elas por aí todos os dias.