Viena é extraordinária

Saímos cedinho de Budapeste num trem esquisito, mas baratinho. Aliás, menção honrosa a esse site, Seat61, que fez minha esperança turística ressurgir. Estava triste e cabisbaixa achando que a maior lenda dos últimos tempos era dizer que trem na Europa era barato. Muitas pesquisas e chegando à conclusão de que seria bem menos oneroso (e bem menos legal) fazer nossos trechos de avião que de trem, encontrei esse site que te mostra as companhias nacionais e regionais de cada país, e assim os deslocamentos de trem couberam no nossos orçamento. O site pra comprar a passagem da Hungria pra Áustria é tão tosco que, mesmo que eu tivesse encontrado sozinha, acharia que era golpe e desistiria dessa opção. O Seat61 me deu o caminho e a coragem (tanana-nanan). E deu tudo certo! 

Chegamos em Viena na hora do almoço a tempo de aproveitarmos nosso primeiro dia (de quatro) quase inteiro. E aproveitamos mesmo. Devemos graças à nossa pior hospedagem (ou segunda pior) do Airbnb. Como não queríamos ficar muito tempo no nosso apartamento sujinho, ficávamos muito na rua, adiando a volta pra casa. A gente devia denunciar aquele ap pro governo, pq ele é totalmente o contrário de toda a perfeição que a gente via do lado de fora. Até o sapateiro tem uma vitrine arrumada, limpa e linda. Não é possível que Viena permita que um apartamento seja fedido como esse que a gente ficou.

Stadtpark, Leandro e uma senhorinha elegante

Stadtpark, Leandro e uma senhorinha elegante

O tempo todo, pra todos o lugares que você olha, Viena parece estar dizendo: sou um império. Demorei pra me acostumar com essa cidade. Na verdade, acho que fui embora sem me acostumar. Às vezes eu achava que não estava nem vestida adequadamente pra andar em Viena. Não por causa das pessoas, mas por causa da arquitetura mesmo! Ninguém tava combinando com aquela suntuosidade toda. A impressão que eu tenho é que eu nunca mais vou conseguir usar essa palavra, "suntuoso", tão bem aplicada. O certo seria que eu estivesse usando um vestido do século passado, pesado, um penteado bem bonito na cabeça, joias. Mas nesse caso não daria pra andar de bicicleta.

E esse foi um dos pontos altos desses dias. Leandro sempre insistindo nesse transporte e eu sempre enrolando. 2 motivos principais: impossibilidade de curtir as coisas com mais tempo e atenção, já que não é aconselhável ficar olhando pra cima e pros detalhes da cidade e por termos de tomar conta das bicicletas (dentro desse motivo está o fato de tirar menos fotos) e o segundo é que me sinto insegura. Se não fosse Viena não estaria aqui pra escrever essa historinha pra vc. Em qualquer outro lugar teria sido atropelada. Queria aproveitar e mandar um beijo pros vienenses que são pessoas calmas e educadas, respeitam os limites baixíssimos de velocidade, compreendem a postura de pessoas que cresceram em lugares sem ciclovias (e com isso não aprenderam a lidar com essas regras ciclísticas) e sequer me xingaram. A gente não conheceria metade dos lugares que conhecemos se não estivéssemos de bicicleta e conseguimos parar bastante pra aproveitar os parques e o espaço aberto. Além disso, é tão barato e tão fácil de alugar uma bicicleta em Viena que vale só pra ter a experiência.

Hundertwasswerhaus

Hundertwasswerhaus

Pedalando, demos literalmente a volta na cidade, passando pelo Prater, um parque onde fica a roda gigante mais antiga do mundo, e também pelo Stadtpark, pra admirar as tulipas da época. Demos um "oi" pra casa do Freud e passamos um tempão admirando a Hundertwasswerhaus (o predinho colorido e desajustado aí de cima) e tentando entender a arte desse arquiteto genial. Paramos pra almoçar embasbacados com a beleza do Belvedere e mais de uma vez voltamos pra casa pelas ciclovias da cidade. 

Sonequinha da tarde no Schönbrunn

Sonequinha da tarde no Schönbrunn

Um dos lugares mais sensacionais é, sem dúvida, o Palácio de Schönbrunn e os jardins e florestas que o cercam. Quando fomos visitar esse lugar, o dia estava lindo e decidimos não entrar no Palácio, mas ficar só aproveitando o solzinho nos jardins. Não estávamos no clima de ficar visitando quartos barrocos nos quais nunca dormiremos. O lado de fora já é suficientemente real (no sentido de realeza, e não de realidade). É bem impressionante a forma como todo aquele espaço foi pensado e costruído. Pra qualquer canto que se olhe a impressão que temos é de estarmos dentro de um quadro pintado a partir das mais perfeitas ideias de aplicação da perspectiva e combinação de cores. E olha que as florzinhas ainda não estavam aparecendo por lá. Ricamente hipnotizante. Do Palácio pra Gloriette e vice-versa. Andamos, apreciamos e comemos absorvidos por aquela vista e a sensação escancarada de que estávamos passeando por um lugar que não foi criado pra que pessoas como nós aproveitassem. O único dinheiro que gastamos por lá foi com o ingresso simples pra entrar nos Labirintos, que são muito bem-feitos, bonitos e divertidos.

Em outros momentos de "não-tão-dia-lindo-assim", aproveitamos pra conhecer alguns dos museus mais importantes da Europa. O Kunsthistoriches, além de ficar num prédio lindíssimo, recheado de detalhes que já valeriam a visita, tem uma exposição muito completa e cheia de informações. O Albertina estava com uma exposição temporária super bonita, além dos Picassos, Renoirs e Kandinskys da coleção original, e também fica num prédio especial do séc. XVII.

Vienenses chegam de patinete prum cafezinho no Café Prückel

Vienenses chegam de patinete prum cafezinho no Café Prückel

Pra terminar, os maravilindos cafés vienenses. Dos mais clássicos, como o Café Diglas, o Museum, e o Prückel, aos mais alternativos, como o Das Möbel, com móveis coloridos e modernos que estavam incluídos no cardápio pra quem quisesse comprar. Diariamente à tarde a gente parava pra comer uma gordice e passar um tempo aproveitando esses espaços. Em todos, o famoso strüdel (com tudo quanto é recheio, não só maçã), que é garantia de satisfação. O capuccino foi minha bebida preferida pra acompanhar esses docinhos. A maioria desses cafés ficam abertos o dia inteiro e servem refeições nos horários de almoço e jantar. Mas sobre a parte salgada, a melhor salsicha da temporada comemos em um quiosque, do ladinho do Albertina. No Bitzinger (eles também tem uma lojinha na Währinger Straße 14), você pode pedir a salsicha no pão ou cortadinha com pão à parte. Uma dica pra quem não é fã de pimenta: o que parece queijo ralado na verdade é uma raiz forte (rábano) capaz de desentupir o mais congestionado dos narizes com apenas uma garfada!

Passaria mais 4 dias por lá sem pensar duas vezes. Faltou muito quadro do Klimt pra ver, muito doce pra comer e muito museu pra admirar. Não posso dizer que Viena fez meu coração bater mais forte e acelerado (exceto quando achava que ia cair da bicicleta), mas mesmo assim fui embora com a certeza de que voltarei.