Praga é encantadora

A gente tinha acabado de chegar em Praga, deixamos nossas coisas no hotel e fomos pra rua. Garoava e andamos um tantinho até começarmos a avistar as lindezas que nos esperavam por ali. A chuva apertou e acabamos entrando no primeiro café que apareceu na nossa frente, meio desanimados com aquele tempinho maomeno. Terminamos o café e mais 5 minutos de caminhada bastariam pra eu perceber que meu coração era todinho de Praga. O colorido dos prédios, o tanto de gente na rua, os dourados, as vielas que parecem cenográficas. Eu só conseguia repetir e repetir que estava apaixonada. Gostaria de lembrar que o céu continuava cinza.

Nem o céu cinza consegue enfeiar Praga

A cidade estava lotada e isso me gerou duas emoções antagônicas: irritação e entusiasmo. Apesar da disputa por espaço, o clima de animação de todos era tão influente, que os sorrisos acabaram ganhando das caretas. Eu já imaginava que tinha alguma coisa séria acontecendo por ali, desde que comecei a pesquisar hospedagem com uma certa antecedência e não achei nada no centro da cidade. Simplesmente não tinha opção, nem as que a gente não poderia pagar. Por isso reservamos um hotel (muito bom, aliás) a poucas estações de metrô, mas 30 minutos andando, pelo menos, até o centro histórico. No final do dia e da viagem, isso faz bastante diferença. Não pesquisamos sobre esse fenômeno de amor repentino pela República Tcheca até chegarmos lá e entendermos rapidamente: tava tendo Copa. Campeonato Mundial de Hóquei no Gelo, mais precisamente. E Maratona. 2 eventos bem importantes e que levaram milhares de pessoas pra lá. Além disso, parece que Praga é uma das capitais preferidas como destino pra despedidas de solteiro (por aqui é um evento quase tão importante quanto o casamento em si) e assim, em cada esquina um motivo pra rir de um homem fantasiado toscamente seguido de um grupo de amigos uniformizados e felizes. Não sei se por tudo isso, mas com tudo isso, a sensação de estarmos numa festa era eterna e talvez esse tenha sido um motivo para fazer a gente se sentir tão bem ali.

Pessoas com camisas de hóquei cantando e batendo palmas em uma sala de restaurante. A ironia de existir um Museu Comunista bem do lado de um Mc’Donalds. Um grupo batucando samba, todo mundo vestido de verde e amarelo, pra animar os corredores bem nos últimos 500 metros da Maratona. Nosso primeiro jogo de hóquei ao vivo (ou da vida, no meu caso, sobre o que não posso dizer ter sido meu programa preferido nesses dias). O relógio e seu cuco, que fazem uma mini apresentação de hora em hora na Praça da Cidade Velha.  Marionetes várias espalhadas por lindas vitrines pela cidade. A sensação era de que o tempo todo tinha alguma coisa acontecendo, que talvez a gente não estivesse percebendo.

Se incluem aí as piadas internas de David Cerny e outros artistas contemporâneos que, espalhadas pela cidade, querem dizer muito mais do que o que a gente consegue ver só com os olhos. Cerny foi uma das coisas que eu mais gostei de descobrir nessa viagem. Suas obras são interessantíssimas e esperam uma reação de quem as encontra, mesmo que seja só na sua cabeça. Uma das mais conhecidas é a escultura de 2 caras fazendo xixi. Até aí, nada de muito novo, até que você olha pro chão e percebe q eles o fazem em cima do mapa da República Tcheca. E não é só isso! Eles escrevem coisas com o xixi, que podem ser sugeridas através de SMS’s que as pessoas enviam. Voltaria a Praga só pra descobrir todas as obras que esse cara expõe por lá. 

John Lennon e cor

John Lennon e cor

E também por outros motivos. Como esse muro aí de cima. Início dos anos 80 e a Checoslováquia (República Tcheca e Eslováquia eram um só país) ainda era governada sob forte influência de uma União Soviética já desgastada. A morte de John Lennon comoveu pessoas por todo o mundo e ali em Praga um grupo resolveu pintar num muro o rosto de Lennon. Obviamente a polícia repressora do país não admitiu aquilo e pintou tudo de cinza, sem qualquer gentileza, como geralmente agem os obcecados por muros cinzas. Mas o mais legal é que as pessoas também não admitiram a atitude da polícia e o rosto de Lennon, acompanhado de frases de esperança, foi redesenhado inúmeras vezes. Todas as vezes em que o muro foi coberto com a intenção de fazer com que as ideias daquelas pessoas desaparecessem, o muro foi recolorido. E ele tá lá, cheio de cor até hoje, quando eventualmente ainda acontece de ser coberto de tinta branca pelo dono do local. Mas o Lennon e a liberdade sempre ganham.

Aliás, o colorido também presente na arquitetura foi outra coisa que contribuiu pra eu gostar de cara da cidade. Muitas expressões arquitetônicas chamam a atenção em Praga, como a Ponte Carlos e tudo no Castelo, mas a cor sempre acaba exercendo uma atração muito forte sobre mim. O tempo todo encontramos prédios coloridos, muitos em tons pasteis, vários com mais de uma cor. Herança da Arte Nova que dominou a cidade no século passado. Foi a primeira imagem que me chamou atenção quando chegamos e que ficou gravada em mim como uma das características mais queridas em Praga. O rio Moldava, eu de um lado observando a outra margem enfeitada por prédios coloridos e combinando entre si. Um cenário enorme montado bem na nossa frente esperando pra ser explorado.

Cerveja tcheca e dumplings no Lokal

Exploração essa que passa sem dúvida pela comida (e bebida!) local. Eu não sou a maior apreciadora de cerveja, mas devo dizer que a cerveja em Praga foi um dos pontos altos dessa viagem. A maioria dos lugares onde comemos produzia sua própria cerveja, o que eu já acho o máximo, e sempre muito boas. Pra acompanhar, goulash (uma espécie de cozido de carne e legumes) ou os sempre presentes dumplings (uma espécie de massa feita com pão ou batata) e carne com molho. Nossos lugares preferidos foram o Lokal e o U Fleku.

Quando fomos embora de Praga eu já tinha vontade de voltar. Terminar de escrever esse post agora, quase 1 ano depois, me trouxe um desejo ainda maior de ver tudo isso de novo.

Cidade Velha